terça-feira, 22 de agosto de 2017

A Carta

E no fim, você sempre estará sozinho. Não importa se na sala de aula está rodeado de colegas, se nas festas há aquela rodinha de amigos, se em sua sala de estar a família está reunida, nada disso importa se lhe faltar algo. O que me faltou foi aquele chorinho no meio da noite me pedindo atenção, foi aquelas gargalhadas contagiantes ao ver minhas palhaçadas para arrancar-lhe elas, aquele futebol que, mesmo faltando-me o talento eu iria me esforçar para ver o meu menino feliz. Tudo isso foi levado naquele dia meu filho, em que por um descuido tu deixaste de morar comigo, tua irmã e teu pai para morar com Deus.
Ah, quantas vezes aquela enorme vontade de me juntar a ti me visitou, a vontade de te ver novamente, admirar o teu rosto, o teu sorriso e viver tudo aquilo que perdemos. Eu juro que tentei inúmeras vezes te reencontrar, as marcas em meu corpo e os milhares de receituários médicos não me deixam mentir, tentei seguir a vida na Terra, mas que vida é essa ? Tudo é tão triste desde aquele dia! 
Alguns meses atrás tua irmã me deu a honra de ser avó, não irei mentir, por um momento me senti completa novamente, é triste saber que minha neta não terá uma avó, e que deixarei tua irmã aqui na Terra, mas, foram tantas tentativas, tantos fracassos, que dessa vez não darei espaço para que nosso reencontro seja cancelado, tentei me recuperar, juro que tentei, mas essa doença tomou conta de mim, a maldita doença que não permite que eu viva, que não permite que eu siga aqui nesse lugar, ah meu filho, não se culpe, não é culpa sua, a culpa é minha, fui fraca e depois que tu se foi, deixei que ela tomasse conta de mim, e assim me fizesse cada vez mais acreditar que aqui não é o meu lugar. Irei contar-lhe um segredo, antes de deitar-me na cama hoje, da forma menos dolorosa a mim, e aos que ficam na Terra, mediquei-me , mas não para melhorar, e sim para te reencontrar, creio eu que em algumas horas estarei ao teu lado novamente, na verdade, já sinto tua presença aqui, queria poder dizer que amo minha família, e que eles fizeram tudo o que puderam por mim, e que eles não falharam, mas sim eu que acertei, e ganhei essa luta interna que havia em meu corpo, agora meu filho, deixo esse lar, parar morar ao lado teu, e assim acalmar o meu coração que tanto sofreu.








A.G.

Destino

De repente me pego encarando novamente o teu olhar. Mas como depois de alguns meses sem alguma palavra trocada, sem ao menos um encontro daqueles inesperados, depois da superação daquele amor que o meu ser sentia por ti, estaria eu aqui novamente frente a frente a ti? 
Ah! Aquela confusão novamente invade meu peito, o mais estranho é que, o coração já não acelerou mais ao te ver de longe, ao ouvir tua voz, ao tocar a tua pele, é eu realmente superei! Mas, e aquele embrulho no estômago? E aquele nervosismo que não deixou minha perna um minuto sequer parada? Talvez seja porque a dois meses atrás eu ainda chorar por tua indiferença, por eu saber que no final, tu sempre virá até mim, e eu irei ceder, desmoronar e aceitar as migalhas que tu faz com que sobrem pra mim.Mas eu aceitei suas migalhas, portanto vocês se acostumou a me da-las, sei que não deveria, porém neste emaranhado de duvidas que é o meu coração, achei que só migalhas me bastariam, que seriam a unica coisa que eu encontraria, em um momento em que eu desacreditei de mim, você apareceu ,me oferecendo o seu pouco, que na hora era muito para mim.
É, novamente eu cai nas tuas armadilhas, não resisti aos teus beijos, não resisti ao teu abraço, ao teu olhar. Ah! Aqueles olhos que me faziam sorrir, que me hipnotizavam, que nunca foram meus e talvez nunca serão, mas que, por mais uma vez me fizeram sentir como se fossemos feitos um para o outro, afinal o destino sempre se encarrega de, no final estarmos somente eu e tu, novamente !









E.R.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Parabéns

"Feliz aniversário", ao ouvir essa frase logo lembro de crianças brincando, gritos, risadas. Mas ao fazer noventa anos irei eu pensar nisso? Ao ver minha bisavó fazendo os seus noventa anos me deparei com tal questão. Na hora do famoso "parabéns" vi em seu rosto  uma lágrima correr, aquilo me deixou curiosa, porque naquele momento, para mim o mais feliz do aniversário, aquela lágrima caiu?
Cheguei a duas conclusões: primeiro seria de felicidade, afinal a família toda estava reunida e suas amigas se faziam presentes e segundo, de tristeza e medo,medo de que tudo acabe, que a sua vida chegue ao fim, tristeza por imaginar que essa data poderia não se repetir daqui alguns anos.
Me deparei com aquela cena  e me imaginei completando noventa anos, noventa anos de felicidades, algumas tristezas, ver filhos, netos, bisnetos e tataranetos crescer. Ah! Eu seria tão feliz, só de pensar em chegar onde ela chegou. E é por isso que prefiro pensar que aquela lágrima era de felicidade, por ter vivido para ver,a nossa família crescer.




A.G.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Uma vida esquecida...

Imagine alguém que já  viveu quase noventa anos.O que poderia nos ensinar?Quantas histórias e aventuras poderia nos contar?Ah, se ao menos lembrasse do que comeu no jantar...Pois é, esse alguém não guarda lembranças nem de sua filha, quem dirá de noventa anos vividos.
Imagine agora você, sem lembrar das risadas,dos abraços,das festas, das aventuras que passou, dos momentos tristes, de choro. Talvez fosse bom não lembrar dos momentos tristes, não? 
Mas, infelizmente, essa doença apaga todos os momentos e as pessoas. Deixa pessoas de noventa anos com memórias de uma criança de nove. Transforma alegrias em dor, dor por não lembrar de sua infância, dor por não saber nada de sua juventude, a dor de não lembrar do amor de sua vida, de depender de outros, dor de aos poucos ver sua vida perder sua cor.

Quem me dera fazer um dia,uma prosa ou poesia, contando a este alguém a vida que teve um dia. Contando suas aventuras, ensinando-lhe sobre sua vida,e criando novos sorrisos, onde havia somente dor, tentaria amenizar este sofrimento, dando atenção, a quem na vida não vê razão.




E.R.